O Ato de Colecionar


**Essa reportagem foi feita por estudantes de jornalismo da Universidade de Sorocaba, no ano de 2016**

Selecionar, organizar e guardar, parecem costumes rotineiros mas para um colecionador é mais do que isso, cria-se um sentimento afetivo por seus objetos, seja por uma simples diversão ou um costume compulsivo gerando uma neurose. Porém quem nunca colecionou algo? Seja carrinhos em miniatura, ursos de pelúcias, cardes, filmes, livros, e entre tantas outras opções, há uma infinidade de coisas que são colecionáveis, praticamente tudo. Mas o que faz escolher uma determinada classificação de objeto e iniciar uma coleção a partir disso, é muito relativo e os motivos variam de formas pessoais para cada indivíduo, algo relacionado ao seu próprio passado, gostos, ou em seu interior.



Acredita-se que o ato de colecionar surgiu por volta da época pré-histórica, e desde então o homem desenvolveu aos poucos essa habilidade, pois na época não era organizado e selecionado à risca seus pertences. E isso continuou até os dias de hoje, se tornando um mercado mais amplo que por sua vez existe até como profissão. Colecionar também é visto como algo importante, por que assim preservam-se artefatos antigos e com isso uma memória ou história se mantém protegida.
O mercado comercial pode usufruir do hábito colecionista para o seu próprio benefício nos negócios, de acordo com o Prof. Ms. Agnelo Fedel e autor do livro Os Iconográficos-Teorias, Colecionismo e Quadrinhos “Na atualidade esse processo vem com mais força, pois o mercado sabe disso, e o próprio processo comercial faz com que a propaganda e a publicidade de certos objetos, se vinculem ao processo de colecionar. E eles trabalham nesse sentido, as vezes lançando objetos que tem uma característica colecionista”.
Maya Falks, publicitária e estudante de jornalismo, 34, é uma das muitas pessoas que nutrem a paixão pela Coca Cola. A marca tem um alcance global, sendo uma das mais famosas do mundo e tem como hábito lançar brindes e objetos colecionáveis, principalmente em darás comemorativas, como Natal ou em grandes eventos esportivos. A estudante conta que o entusiasmo pela marca começou quando era criança, ao ver um comercial de natal da Coca-Cola. “Fiquei encantada, todo o visual era muito bonito, a música, tudo remetia à mágica do natal. Achei impressionante a maneira como a Coca deixou sua marca, mas sem fazer dela o foco do comercial. ”



Desde então, Maya começou a guardar tudo o que fosse relacionado à marca; desde brinquedos, miniaturas de garrafas, brindes promocionais. Até mesmo seu quarto é repleto de quadros e acessórios. “Gosto de estar em um ambiente repleto de coisas que adquiri e guardei ao longo do tempo. Me sinto orgulhosa da minha coleção.”, comenta Maya.  “Tenho cerca de 100 garrafas, muitas delas de edições limitadas. Também tenho várias de outros países, que ganhei de amigos e familiares. Sempre que alguém viaja eu peço que me tragam itens da coca, porque sempre há coisas diferentes de acordo com o país.” Maya também conta que, da sua coleção, suas preferidas são as garrafas antigas, e suas réplicas. Ela possui edições de 1899 e 1905.
Seu amor pela Coca vai além do hobby de colecionar. Maya chegou a tatuar em seu braço o logotipo da Coca. “Fazer a tatuagem foi uma maneira de registrar o amor e admiração que tenho pela marca. Assim que tive oportunidade, não pensei duas vezes e fiz a tatuagem.” Também já foi vestida de Coca-Cola em uma festa a fantasia. “Para muitos foi inusitado, mas para mim, foi mais uma forma de afirmar o quanto gosto da Coca”, conclui Maya.



O Psicólogo Cezar Kozyreff, observa esse hábito como uma necessidade que o ser humano adquiriu, segundo a visão psicanalítica em que a psique procura um equilíbrio para sobreviver “o fato de alguém colecionar objetos está ligado à provavelmente a tentativa de permanência de algo e também a uma tentativa de controle onipotente de uma situação. ”, ressalta Cezar.
Paulo Ricardo Lisboa é um empresário sorocabano de 38 anos, ele trabalha com HQs há oito anos. Antigamente trabalhava com criação e comunicação, até que montou um site especializado em quadrinhos, HQ Maníacos, e passou a ajudar a procurar títulos na internet que não se encontraria no mercado nacional. Logo começou a trabalhar com diagramação de quadrinhos e então montou a editora EDDA, que lança títulos alternativos. Sentindo a necessidade do mercado regional, montou uma loja de quadrinhos, Sorocomics, que tem como publico alvo os fanáticos por histórias em quadrinhos. A loja tenta manter um catalogo diferenciado, com títulos já conhecidos e outros novos no mercado, para atender todo o tipo de amante das hq’s. Também realiza a média de um evento por mês, entre feira de trocas e tarde de autógrafos “Isso serve para tornar a Sorocomics um ponto de encontro para o pessoal que admira a nona arte” conta Lisboa.
Na sua loja há grande procura de colecionadores, principalmente por títulos raros. As feiras de trocas são uma forma de manterem os colecionadores em contato, manter rotatividade no mercado e criar canais de comunicação para as novidades do meio. “Para o colecionador temos dois mercados: o que coleciona e o que coleciona para vender a coleção para outro colecionador” diz Lisboa. Ele acredita que o colecionador acarreta no objeto que coleciona não só o valor comercial, mas um grande valor emocional. Isso que torna a sua coleção tão importante e o faz sempre querer aumenta-la e nunca “larga-la”.



"Eu trabalhava com decoração e descobri que as bonecas da Disney Store eram muito mais lindas das que encontramos no Brasil. Então comecei a importa-las, pois valiam muito a pena e se destacavam na decoração, dando um diferencial" diz o Diretor de Arte Augusto Sores, 21 anos. Mesmo que hoje em dia ele possua uma coleção com cerca de 50 bonecas, ele conta que nunca gostou de colecionar nada, que seu interesse começou puramente profissional, depois se transformando em seu hobbies. Começou com as bonecas do filme Frozen, mas a sua favorita e a boneca da princesa Cinderela, baseado no filme lançado em 2015, uma replica da atriz Lilly James, que interpreta a personagem.
Augusto conta que uma das mais difíceis para encontrar para sua coleção foi à boneca da princesa Branca de Neve, que é rara e cara. Ele já havia encontrado a algumas vezes, mas nunca tinha tido a chance de compra-la. Então uma amiga de trabalho postou em sua pagina online um álbum com fotos de decoração que tinha feito naquele dia e, entre as fotos, ele encontrou a boneca que tanto queria. Conversando com essa amiga ele soube que ela tinha duas unidades e, ao falar da sua coleção, acabou ganhando uma boneca, a considerando a mais especial que possui.
Mas não basta ter, tem que cuidar "Eu quando compro gosto de customizar, deixar a boneca mais bonita, de preferencia igual ao filme ou um pouco melhor. E com isso elas ficam mais sensíveis, então deixo sempre presas em suportes de metal, e todo o dia tem que tirar a poeira delas, é uma tarefa a mais na limpeza da casa" conta Augusto.
Já Leonardo Almeida, de 32 anos, é um grande amante de quadrinhos, ele possui uma coleção com mais de 1500 exemplares, dentre edições mensais, semanais, capas duras e especiais. "Comecei a ler desde cedo, com gibis que meu pai me comprava, dentre eles “Turma da Mônica”, “Donald” e “Leandro e Leonardo”. Acredito que tive sorte, pois quando comecei a ler quadrinhos de Super-Heróis, comecei com os clássicos como “O Cavaleiro das Trevas” de Frank Miller e “Para o Homem que tem tudo”, uma HQ do Superman de Alan Moore. E após perceber que meu vocabulário havia se expandido consideravelmente, tornei isso um hábito e comecei a colecionar efetivamente a partir de meus 20 anos.”.



Leonardo acredita que quem quer começar a colecionar, precisa ter duas coisas em mente: Que colecionar qualquer coisa é como ter o registro histórico de algo e que realmente precisa gostar daquilo. "Sempre gostei de colecionar porque é uma forma de aprender mais, pois cada item possui um histórico por trás dele" ele diz.
Mas colecionar não é simplesmente procurar por novos itens e sempre aumentar sua coleção, Leonardo já passou por situações adversas e complicadas pelo seu amor aos quadrinhos. Como por exemplo, na vez que uma enchente destruiu vários de seus exemplares, fazendo que levasse anos para conseguir repô-las. Ou o grande trabalho que teve para conseguir a edição "Action Comics #1", que conta a primeira aparição do Superman, o maios ícone da cultura popular. A edição original é a revista em quadrinhos mais cara que existe, e em perfeitas condições pode valer dois milhões de dólares. “A réplica do original foi lançada pela primeira vez no Brasil em uma promoção da editora Abril em 1994” explica.
Jenifer Talita, 24, tecnóloga em Análise e Desenvolvimento de Sistemas coleciona bolinhas de gude e cartões telefônicos. Ela relata que começou a colecionar bolinhas de gude por causa de seu avô, que além das bolinhas, também coleciona notas e moedas de dinheiro antigo. “Na época tinham uns doces que vinham com bolinhas de gude, aí sempre que dava eu comprava os doces por causa das bolinhas, além disso, meu avô era varredor de rua e sempre achava várias e trazia para mim”.
Sobre os cartões telefônicos, Jenifer diz que começou a colecionar porque usava muito e além disso, os desenhos dos cartões chamavam sua atenção, quando viu já tinha juntado bastante. “Depois que comecei a colecionar, minha melhor amiga também quis, então ficou mais divertido porque sempre estávamos procurando por cartões diferentes e havia uma competição saudável para ver quem juntaria mais. Quando uma de nós tinha um cartão repetido nós trocávamos, uma ajudava a outra com sua coleção”.
Apesar de hoje os cartões quase não serem mais utilizados por causa da popularização dos telefones móveis, ainda é possível encontrá-los em alguns lugares.  “O que me atrai em colecionar cartões, é que hoje são uma raridade, afinal quase não são mais usados. É interessante pensar que vou mostrar pra futuras gerações algo que eles não tiveram a oportunidade de usar e que foi muito importante para a época”, conclui Jenifer.



Mesmo que há quem diga que o Colecionismo possa atrapalhar no desenvolvimento social do individuo, possivelmente gerando uma compulsão, muitos psicólogos negam, dizendo que os benefícios, quando o assunto é tratado de forma saudável, são inúmeros. “Do ponto de vista psicológico, colecionar permite desenvolver habilidades como a perseverança, ordem, paciência e a memória” explica Cezar Koryzeff. “Se não ultrapassar os limites da normalidade, tudo ou quase tudo pode ser colecionado, desde que os motivos que os levam a colecionar sejam sadios, de interesse intelectual, prazeroso ou até mesmo curiosidade, sem dependências! Saindo disso já pode ser algo doentio” complementa, a também psicóloga, Delzidete Moura Bastos.

Mas antes de pensar colecionar algo, o possível colecionador necessita ter um interesse emocional pelo objeto que é escolhido, Agnelo Fedel conta que esse processo remete algo extremamente intimo do colecionador “Existe um prazer psicológico envolvido, e o fato dele estar próximo aos objetos que coleciona pode remeter a uma época de sua vida mais prazerosa, mais feliz”.




Vitor Rodrigues
Isa Feijó
Pâmela Ramos
Kimberly Soares
Rodrigo Honorato
O Ato de Colecionar O Ato de Colecionar Reviewed by Atmosfera Nerd on abril 26, 2017 Rating: 5

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